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RONALDO RHUSSO

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MensagemAssunto: *********CONTOS   Qua 17 Nov 2010, 20:33

A LIGA DA JUSTIÇA

Eriberto era o tipo de pessoa que não costumava desanimar com facilidade. Viu o pai e a mãe serem assassinados na tarde da comemoração do seu aniversário de sete anos e só não morreu também porque o pai tinha acabado de tirá-lo do colo e pedido para que ele entrasse e fosse buscar uma latinha de cerveja no freezer. Ouviu os tiros, os gritos de sua mãe e ainda teve tempo de ver os homens encapuzados, dando um fim ao churrasco do seu aniversário que estava sendo comemorado apenas entre os três, já que não tinham condições financeiras de convidar mais ninguém. Viu os dois carros arrancarem e saírem em disparada. Os dois tinham no vidro de trás aquele símbolo do super-herói favorito de Eriberto que lhe era tão familiar: o homem morcego...
Eriberto fora, a partir de então, morar com a avó materna e se já passava dificuldades morando na beira da linha do trem em Campo Grande, subúrbio do Rio, viu tudo piorar ao ter que encarar o ambiente da Vila Kennedy, onde faltava tudo, menos tiroteios diários.
O garoto gostava de estudar e quando a escola não estava fechada por causa do toque de recolher dos “donos” da favela, ele tentava aprender o máximo que sua mente cheia de traumas lhe permitia. Mas ele queria ser advogado! Muitos dos moradores daquela comunidade eram pessoas do bem, gente trabalhadora e que nada tinham a ver com as guerras entre a polícia e o crime, ou entre facções rivais, mas não era raro alguém morrer sem culpa por uma bala “perdida” e depois sair nas manchetes de jornais como mais um associado ao tráfico. Eriberto queria mudar aquele quadro. Já contava dezessete anos de idade e lutava para concluir o Ensino Médio. Precisava conseguir um emprego. Trabalhava vendendo água mineral nas imediações dos semáforos das pistas internas da Avenida Brasil e até ganhava o suficiente para comprar os remédios da avó e a comida tão preciosa! Porém ele queria algo que fosse o primeiro impulso real a fim de mudar de vida e se preparar melhor para realizar o sonho de uma Faculdade, mesmo que fosse particular, pois pelo latente despreparo, dificilmente entraria numa Universidade pública!
Comprava jornal apenas para ler os classificados. Não conseguia uma oportunidade por causa da idade. Sempre lhe davam a mesma desculpa:
— Volta quando sair do Serviço Militar! Talvez haja alguma coisa para você, mas lembre-se que não estamos lhe prometendo nada!
E Eriberto seguia em frente, dizendo não aos oferecimentos de drogas, emprego como “soldado do crime” (Eriberto era alto e tinha porte atlético. Os traficantes muitas vezes lhe convidavam a ganhar dinheiro de verdade e zombavam dele que sempre recusava, se desculpando)...
Um dia lhe chamaram para distribuir panfletos de candidatos. Dinheiro mole, dissera seu parente distante que saíra fazia pouco tempo da cadeia e se instalara na casa onde Eriberto morava com a avó, mas que pertencia a esse tio de segundo grau que fora preso mais de uma vez por assaltos à mão armada e outros delitos.
Foram no fim da tarde até Guaratiba, zona oeste do Rio, a fim de participarem de uma reunião com centenas de outros homens e mulheres num galpão. Uma mulher muito bonita coordenava tudo e não iniciou a palestra até que todos tivessem se servido com a farta quantidade de frios, pão, café e chocolate distribuídos sobre uma mesa enorme num canto do galpão.
Eriberto comeu até se fartar e já estava gostando do provável emprego.
Então a mulher começou a dizer:
— Vocês não vão trabalhar para candidato morto de fome, não! Quem já ta com a gente há mais tempo pode comprovar. É segurança total! O esquema é muito simples: fala que é gente do Arlindinho e do Severino que ninguém bota bronca com vocês. Não precisa ficar em esquina ou em calçadão de bobeira. Começa com os próprios familiares! Fala que o grande projeto é criar Centros Sociais de atendimento médico gratuito, oficinas de arte, cursos de informática... E do fim do tráfico, mas sempre no sapatinho.
— Os homi chegaram! Os homi chegaram! — Gritava um sujeito franzino, mas que usava um colete desses de guarda-costas.
— Então gente, esses, para quem ainda não conhece, são meu pai, o vereador Arlindinho e o meu tio, o Deputado Severino. — disse a mulher que coordenava a reunião.
— Boa noite, pessoal! Vocês são o reforço para nossa campanha, estou certo? — foi logo dizendo o que fora apresentado como deputado e entrara no recinto ao lado do irmão e rodeado de seguranças que não faziam a menor questão de esconder as armas que portavam. Nas últimas eleições eu fui reeleito e agora vamos reeleger o meu irmão. Quem ficar com a gente até o fim não vai se arrepender. Vai ter emprego bom para todo mundo que fizer parte da liga! — continuou o deputado.
Nisso, Eriberto percebeu que alguns daqueles homens armados usavam no peito, por baixo do colete, o símbolo do Batman e, fatalmente, lhe veio à lembrança a fatídica tarde em que os pais foram assassinados. Eriberto sentiu uma tonteira e vontade de vomitar. Pôs a mão na barriga... O tio percebeu que ele não estava bem e colocou a mão no ombro dele.
— Comeu demais, né figura? — brincou.
Enquanto isso o deputado havia passado a palavra para o vereador que falava, falava, ria alto e todos riam juntos, mas Eriberto não conseguia prestar atenção a nada. Só queria sair correndo dali.
Onde fora parar? — Era a pergunta que se fazia.
Ao fim da reunião o vereador e o deputado apertaram as mãos de alguns que estavam sentados mais à frente, sinalizaram pros que estavam mais atrás e foram embora seguidos por alguns dos que estiveram ali bebendo suas palavras e escoltados pelos seguranças.
Eriberto sabia quem poderia ter assassinado os seus pais, mas e agora? Aquele bando era poderoso demais! O tio dissera que boa parte dos que estavam escoltando eles eram policiais.
Os próprios políticos eram policiais licenciados!
Tinha que haver um meio de aqueles assassinos pagarem pelos crimes cometidos, mas como? Eriberto jamais pegara numa arma!
Decidiu não voltar mais lá, porém uma semana depois o tio chegou em casa todo sorridente. Mostrou um maço com uma grande quantidade de dinheiro em cédulas de pequeno valor e disse:
— Agora eu tou com os caras! E tem vaga pra você se quiser, figura! O carinha que recruta o pessoal da elite disse que você tem perfil de segurança e que se tu tiver a fim vai te arrumar uma boca. A grana vale a pena! Tem umas paradas com as vans da Zona Oeste. É só cobrar o pedágio referente à segurança e o salário bate na data certa. Da até pra arrumar um por fora acharcando os motoristas com uns vales transportes. Eles reclamam, mas sempre liberam. Molezinha, figura!
Eriberto não disse nada. O outro deu de ombros enquanto ele pegava a caixa de isopor cheia de garrafinhas de água mineral e gelo e foi para a Avenida Brasil tentar faturar um dinheiro enquanto ainda estava no horário do rush e havia engarrafamento.
No dia seguinte saiu muito cedo em direção ao centro da cidade, comprou um jornal no ônibus mesmo e foi marcando, na sessão de classificados reservada para anúncios de emprego, todas as possibilidades que lhe pareceram interessantes. Passou a manhã inteira preenchendo fichas e ouvindo a mesma desculpa de que aguardasse que entrariam em contato depois.
Parou em frente a uma gráfica, conferiu o endereço... Era ali mesmo! O problema é que já estava tarde e se houvera mesmo alguma vaga ali certamente já havia sido preenchida. Mesmo assim decidiu tentar. Foi até o balcão e uma moça fez sinal para que ele aguardasse. Não havia onde sentar e ele, exausto, ficou ali escorado no balcão. Minutos depois ela saiu por uma porta; a mesma por onde entrara ao pedir que ele aguardasse.
— Em que posso ajudá-lo? — perguntou delicadamente a moça.
— É que... Eu sei que já ta meio tarde, mas eu vim ver o emprego de entregador. — respondeu, quase gaguejando, Eriberto.
— A vaga foi preenchida bem cedo. Aliás, eram duas vagas. Infelizmente você não teve sorte. — disse novamente a moça.
Eriberto fez cara de resignado, agradeceu a atenção e já iria embora, quando um senhor de meia idade, barbudo e de óculos que também tinha saído pela mesma porta que a moça e ouvira a conversa perguntou:
— Você já trabalhou em alguma gráfica, garotão?
— Não senhor! — respondeu Eriberto.
— Tou procurando um aprendiz. Quantos anos você tem? — perguntou novamente o homem.
— Tenho dezessete! — respondeu novamente Eriberto.
— Eu tinha em mente um garoto mais jovem com no máximo dezesseis por causa da lei e tudo o mais, porém se você quiser fazer uma experiência eu vou te dar essa moral, porém não vou assinar tua carteira, ok? Se você topar a gente faz um contrato até chegar a época do Serviço Militar. Se lhe parecer interessante pode voltar amanhã mesmo. — Falou o homem de óculos que era o chefe da gráfica.
Eriberto agradeceu e disse que topava sim.
— O senhor não vai se arrepender em me dar essa chance. Eu não quero ser militar. Odeio armas e vou fazer de tudo para não ter que servir, mesmo que eu não esteja trabalhando aqui. — completou Eriberto.
No dia seguinte ele chegou às sete da manhã e o Pederneiras, o chefe da gráfica, foi logo dizendo que o expediente ali começava bem cedo.
— A gente faz serviços diversos, desde impressão de cartazes, cartões de apresentação... Mas o grosso vem da impressão de uma revista que fazemos para um jornal que fica na outra esquina e é de um pessoal da família. Portanto o negócio aqui pega fogo até altas horas. Se quiser aprender e entrar no ritmo vai ter que se esforçar bastante, ta falado? — Perguntou o Pederneiras.
Eriberto assentiu com a cabeça.
O próprio Pederneiras fez um “tour” com o Eriberto pelas instalações e foi falando o nome de cada máquina, cada funcionário e sua respectiva função... A maioria das máquinas parecia bem antiga, todas interligadas a terminais de computadores, mas estavam trabalhando a todo vapor.
— Aqui a gente só não trabalha para político! Pode ser que no futuro a gente tenha até que fechar, mas para essa classe eu prefiro não executar tarefa alguma, se bem que existem uns caras muito decentes, porém prefiro não abrir exceções que venham a se tornar precedentes, entendeu? — Ia falando o Pederneiras...
— Aquela dali é o xodó da casa — apontou para uma máquina mais moderna e de tamanho maior que as demais — é nela que são impressos os livros de uma Editora que terceiriza o serviço para a gente. Aqui você vai começar executando a limpeza das máquinas, lubrificando quando necessário, dando uma geral no chão, porque todo mundo cuida da limpeza do local, apesar de ter a galera da faxina pesada. — Completou o Pederneiras.
O chefe da gráfica parou em frente a uma máquina que mais parecia uma peça de museu e que, apesar de antiga, estava bem cuidada e conservada. Mostrou como eram realizados os trabalhos no passado com a colocação dos tipos um a um... Eriberto estava encantado com toda a novidade! Osmar, um dos repórteres do jornal que dividia os excessos nas demandas de impressão com a gráfica, apareceu de repente e o Pederneiras apresentou o Eriberto como a nova aquisição para a equipe e como Osmar era bastante jovem, começaram a conversar enquanto o Pederneiras estava cuidando de alguns afazeres, dando algumas ordens... Eriberto ficou muito feliz quando Osmar o convidou para fazer uma visita futura nas dependências do jornal.
— A oficina de lá é de cair o queixo, cara! Se você se impressionou com essa daqui vai ter uma surpresa ao ver a nossa que já está completamente informatizada! — Falava sem parar o Osmar.
Osmar era repórter policial. Naquele momento não estava indo muito bem. Ele explicou para o Eriberto que precisava de um “furo” de reportagem para manter o respeito do editor chefe do jornal. Marcaram de comer alguma coisa juntos na hora do almoço e o Pederneiras foi logo avisando que era só de meia hora. Passou algumas orientações de trabalho pro Eriberto ir se ocupando. Osmar se despediu, confirmou o almoço e foi embora.
No intervalo para o almoço, Eriberto, constrangido por não ter dinheiro para mais que um sanduíche, foi tranquilizado pelo Osmar que lhe convidou para dividir um galeto.
Eriberto era de falar pouco, mas ao se sentir a vontade com o Osmar contou a infância em Campo Grande, o assassinato dos pais e a vida difícil na Vila Kennedy, morando na casa do tio ex-presidiário.
Contou sobre a reunião no galpão na Estrada do Magarça, em Guaratiba, onde a mulher bonita coordenava tudo sob o olhar atento de vários homens armados... Contou que reconhecera o mesmo símbolo que ele vira nos vidros de trás dos carros nos quais chegaram e fugiram os bandidos que mataram seus pais, nas camisas dos seguranças dos políticos que queriam recrutá-lo para uma tal de “Liga da Justiça”. Osmar nem comia mais! Ficara vidrado na história e de vez em quando incentivava Eriberto a continuar falando. Esse, por sua vez, contou também o esquema das vans...
O horário do almoço acabou para Eriberto e Osmar o convidou para continuar a história no almoço do dia seguinte.
— Faço questão de pagar de novo amanhã! — frisou o Osmar.
Na manhã seguinte Eriberto chegou antes das seis e meia da manhã para impressionar o Pederneiras e tinha bastante serviço para fazer. Na hora do almoço o Pederneiras disse que ele poderia tirar uma hora livre.
Encontrou o Osmar no mesmo boteco e conversaram bastante. Num dado momento Osmar disse que precisava de um favor do Eriberto, mas disse que ele poderia recusar tranquilamente que a amizade deles, que apesar de recente, continuaria a mesma.
Antes de Eriberto esboçar qualquer reação Osmar foi logo dizendo:
— Cara! Eu preciso que você volte numa daquelas reuniões lá no galpão. Quero, se possível, que você aceite fazer parte da equipe, pois a gente pode colocar essa gente na cadeia! Mas te aviso logo que é muito perigoso! Eles matam pra caramba! Andei investigando e tem um monte de crimes relacionados a esses caras, mas ninguém abre a boca. Tem delegados que recebem dinheiro deles e por isso fica tudo como se fossem negócios normais. Tem até um esquema de venda de gás adulterado! — Concluiu o Osmar.
Eriberto sentiu-se ofendido e temeroso com um pedido de tamanha dificuldade, mas disse que iria pensar. Além do mais tinha o emprego na gráfica que pagava pouco, mas era um começo! O Osmar disse que ele poderia ficar tranqüilo. Só se envolveria se quisesse e ele entenderia qualquer que fosse sua decisão porque realmente era uma tarefa difícil de cumprir. Apertaram as mãos, se despediram e cada um voltou pro seu ambiente de trabalho.
Eriberto passou a levar uma marmita que a avó preparava e ficou quase uma semana sem ver o Osmar que também andava ocupado com umas matérias ligadas às campanhas políticas.
O tio do Eriberto não aparecia em casa fazia três dias e na terceira noite uns caras chamaram por ele do lado de fora da casa. Eriberto atendeu e disse que o tio tinha desaparecido, pois não dera notícias e sua avó estava desolada. Eles murmuraram alguma coisa e foram embora logo.
Na manhã seguinte Eriberto viu um movimento numa área adjacente à Avenida Brasil onde costumavam desovar alguns corpos. Ele foi até lá antes que seu ônibus passasse e quase desmaiou ao ver o tio em pedaços, que alguns curiosos e policiais tiravam de dentro de um saco enorme. As partes do corpo estavam crivadas de bala. Os membros e a cabeça do tio estavam separados do tronco. Alguns dos que estavam ali riam da cena macabra e Eriberto não se conteve e começou a vomitar.
Eriberto se recompôs com muito custo e procurou um orelhão, pois não tinha créditos no celular, para ligar pro Pederneiras contando o que ocorrera. O Pederneiras não estava de bom humor, mas liberou ele para ficar em casa só naquele dia.
Parece que o tio de Eriberto tinha desviado um dinheiro da segurança e a punição foi a morte daquela forma!
No dia seguinte, após o enterro do tio, Eriberto foi logo procurar o Osmar e disse que topava encarar o desafio que ele lhe propusera. O Osmar lhe deu um pequeno dispositivo que servia para gravar conversas e orientou como usa-lo. Eriberto pediu demissão da gráfica, pra surpresa do Pederneiras que estava gostando da dedicação do jovem, e procurou o responsável pelo recrutamento do pessoal da segurança. Foi aceito de imediato, não antes de receber as instruções acerca das funções que ele exerceria e de ser lembrado como seria a punição em caso de traição.
O galpão em Guaratiba era um Centro Social, onde centenas de pessoas eram atendidas por médicos e outros profissionais. Os habitantes do lugar idolatravam o vereador Arlindinho e nas imediações do Centro Social que agora estava com uma lona preta tapando o nome do vereador por causa das leis eleitorais estava sempre rodeado de sujeitos mal encarados que apesar de não fazerem parte da segurança, gostavam de se fazerem passar por homens do Arlindinho.
Uma reunião foi marcada em meio à madrugada e foi decidido que tomariam o ponto das vans das Comunidades do Jardim Maravilha, Cinco Marias, Pedra de Guaratiba, Areal e outros bairros das redondezas. Muitas cabeças rolaram. Tiros de fuzis acordaram a população e numa ação rápida, Arlindinho passou a ter o controle total de todas as linhas de vans. Eriberto participou da reunião, mas ainda não era de confiança para participar do “abafa”. Mas gravou todo o diálogo. No dia seguinte procurou o Osmar e ouviram juntos todas as determinações do Arlindinho. Osmar disse que para a justiça a gravação era ilegal e não serviria como prova, mas eles poderiam tirar algum proveito. Havia uma ameaça de estourar o point de cobertura das ações que era uma delegacia no centro de Campo Grande. O delegado chefe não estava satisfeito com as reclamações do Secretário de segurança do estado e estava ainda mais insatisfeito com o valor do arrego que recebia e que tinha que dividir com alguns agentes. Ciente dessa insatisfação, Osmar deu um jeito de a gravação chegar até o delegado e, esse que ouviu de uma ameaça de bomba contra a própria delegacia, retirou as viaturas do pátio e deixou um pessoal de sobreaviso. Na mesma noite preparou uma equipe com ordem judicial e o apoio da Polícia Federal. Estrategicamente organizaram uma investida nas casas dos filhos do vereador e de todos os cabeças com mandados previamente expedidos por um juiz Federal. No início da madrugada enquanto a força tarefa se dirigia até a casa dos meliantes, dois deles passavam lentamente sobre um viaduto que fica acima e paralelo à Delegacia e lançaram uma bomba de efeito bastante destrutivo de lá de cima no pátio externo da Delegacia. Enquanto isso o vereador, o filho e a filha, juntamente com dezenas do bando, além do deputado estadual, eram presos em diversos pontos da cidade.
Por incrível que pareça, a população que era beneficiada de alguma forma por esses bandidos fez uma manifestação em prol da soltura deles, mas que não deu em nada e Eriberto se sentiu vingado parcialmente porque os irmãos que eram os cabeças da organização criminosa foram encaminhados para uma prisão de segurança máxima num estado do centro oeste brasileiro, mas infelizmente, mesmo presa, a filha do Arlindinho conseguiu ser eleita vereadora, saiu da cadeia e aos poucos o terror voltou a imperar novamente.
O Osmar e o Eriberto, que passaram a se encontrar mais vezes num bar próximo da redação do jornal, comemoravam os dezoito anos do Eriberto junto com outros novos amigos do jornal e os amigos da gráfica, onde Eriberto fora readmitido, quando o Batman, homem de confiança do Arlindinho e do Severino, e, o mais cruel dos matadores da organização, que conseguira “fugir” pela porta da frente do presídio onde estava sob custódia na cidade do Rio de Janeiro, desceu de um carro de luxo com um fuzil nas mãos e juntamente com outros bandidos exterminaram o Osmar e o pobre Eriberto. Deixando vários feridos...
E a Liga passou a ser ainda mais temida...
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Joseph Shafan

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MensagemAssunto: Re: *********CONTOS   Ter 23 Nov 2010, 20:18

Entregando o jogo

Zelão
Quarenta e cinco do segundo tempo de um zero a zero sofrível. Para o time de Zelão o jogo não valia nada, mas para o adversário a chance de ir para a final. Acontece que o outro time da chave que lutava por essa vaga era arquirival do time de Zelão. A bola foi levantada da direita para a área e o zagueiro Zelão tinha muitas opções, inclusive existenciais. Pelo lado esquerdo da área o centroavante adversário vinha em velocidade. Enquanto a bola subia e iria atravessar a área para o lado esquerdo, Zelão zagueiro era o único de seu time que poderia interceptá-la antes que chegasse ao centroavante conhecido como 'matador' porque fazia gols de toda e qualquer maneira. No vestiário haviam duas malas: uma 'mala preta' e uma 'mala branca'. Frações de segundo para Zelão escolher: I) se projetaria de cabeça para a bola; a) desviando-a para a linha de fundo; b) desviando-a para uma das laterais; c) desviando-a contra o próprio gol; d) desviando-a para o meio-campo; e) resvalando apenas e deixando-a sobrar para o centroavante; f) saltando fora do tempo de bola e errando-a; g) amortecendo a bola para deixá-la quicar à frente dos pés do centroavante; II) fingiria escorregar deixando a bola passar para o centroavante; a) sem saltar; b) saltando com um pé no chão que fingiria perder apoio; c) cairia antes da bola chegar; d) cairia assim que a bola chegasse; III) fingiria estar tendo um ataque cardíaco; a) caindo agora que a bola ainda estava vindo; b) caindo assim que a bola chegasse até seu espaço; c) caindo assim que a bola sobrasse para o centroavante; d) caindo para a frente; e) caindo para um dos lados; f) caindo para trás. Assim que a bola vinha chegando para Zelão, o zagueiro esticou o braço direito e deu um tapa na cara do centrovante. Pênalti, o juiz apitou.

Xaveco
Ainda novo, 'cheio de gás', o centroavante era a revelação do campeonato. E aquela bola, se passasse pelo zagueirão ele mandava pro gol, isso ele tinha certeza. Era seu sonho ir à final, ser campeão, ir pra Europa, ganhar uma boa grana, ser estrela de um time milionário, titular da seleção, aparecer todos os dias nas melhores revistas esportivas...e farras à beça com a mulherada... Mas se o zagueiro chegasse antes, desfazendo a jogada, tudo isso 'iria pra cucuia'. Pôs toda a energia possível aumentando a velocidade e encontrou a mãozona do zagueiro no rosto. Caiu e ficou sentindo sangue na boca. Mas a satisfação era maior que a dor. Pênalti! Ele iria cobrar e se consagrar. Vislumbrou as manchetes do dia seguinte: 'Xaveco resolve e leva seu time pra final!'. Entrevistas a semana inteira,leilão do valor de seu passe, um contrato milionário e muito mais perpassavam novamente sua cabeça. Levantou-se, pegou a bola, colocou-a na marca de pênalti e ficou esperando todo aquele tumulto comum em penalidades máximas: reclamações, juiz cercado e tudo o mais. Quando o juiz, depois de expusar Zelão pela falta e o goleiro por reclamação e um jogador de linha assumir a posição debaixo do gol, Xaveco deu mais uma ajeitada na bola. O juiz autorizou a cobrança e Xaveco deu dois passos para trás e chutou com força. A bola 'descreveu uma paróbola' e embora o goleiro improvisado tenha ido para o canto certo a bola 'foi saindo' de suas mãos. Caprichosa e aleatória a bola bateu na trave e saiu pela linha de fundo. Xaveco colocou as duas mãos na cabeça em desespero.

Armando
Muitos anos apitando campeonatos e nunca tinha sido promovido. Essa era a chance de mostrar toda a sua técnica como árbitro. Um jogo daqueles era o que estava precisando em sua carreira. A bola estava sendo colocada na marca de pênalti pelo centroavante e Armando sentia paz na consciência. O saldo bancário havia tido um salto para cima antes do jogo e ele sabia de onde vinha aquela 'bolada', mas não iria reclamar com ninguém. Mesmo porque ninguém iria contestar suas decisões e também não houve necessidade de nenhuma atuação mais drástica que pudesse gerar alguma suspeita de quem quer que seja. O pênalti marcado era incontestável; a atitude do zagueiro tinha sido passível de cartão vermelho, conforme a regra; o goleiro havia reclamado 'acintosamente' e tinha sido 'bem expulso'. Agora era só esperar o centroavante fazer a parte dele (que demonstrara ser infalível durante todo o campeonato) e tudo o mais sairia conforme o seu 'script'. Quando voltou à realidade do jogo, viu a bola bater na trave e 'espirrar' pela linha de fundo. Olhou para o seu auxiliar na linha de fundo: ele não se mexeu. Tomou a atitude que poderia ainda reparar aquele desfecho que tinha se tornado trágico. Mandou voltar a cobrança alegando invasão da área antes da cobrança pelo time defensor. Após ser cercado pelo time que defendia, sentiu uma pontada no peito e caiu 'fulminado por um ataque cardíaco'.

Márcio
Embora fosse árbitro havia passado toda a sua carreira como 'bandeirinha', embora oficialmente fosse 'auxiliar de arbitragem' no papel. Era o árbitro reserva naquela partida e após todo o tumulto envolvendo Armando, seu colega de muitos anos, acalmados os ânimos, muito mais pela intervenção do policiamento, trilou o apito várias vezes mandando as equipes se arrumarem para nova cobrança da penalidade. Tinha sido pênalti, ele havia visto com rigor, mas tinha dúvidas quanto à invasão da área, mas o que estava marcado pelo árbitro era o que importava. Orientou o goleiro como mandava o costume quanto à sua ação na linha de gol. Verificou que não havia nenhum outro jogador além do batedor e o goleiro na área de gol. Viu o centroavante, depois de ajeitar a bola na 'marca fatal' dar dois passos para trás. Apitou autorizando a cobrança e acompanhou a bola. Observou o goleiro improvisado saltar para o lado direito, enquanto a bola rumava para o lado esquerdo e em seguida, com as pernas esticadas tocar com o pé esquerdo na bola. Acompanhou a bola mesmo assim indo para o canto do gol, tocar na trave, voltar um tanto amortecida para o meio da pequena área e o centroavante alcançá-la e mandar para as redes. Gol! ele demonstrou apontando um braço para o meio campo e correndo em direção a ele. Olhou para trás e o 'bandeira' continuava na linha de fundo, sendo cercado na sequência por jogadores dos dois times. Voltou até lá e Pedro disse-lhe que a bola tinha sido tocada duas vezes pelo centroavante ante de ir para as redes o que invalidava o gol e que teria de ser cobrada falta com tiro livre indireto a favor do time que estava se defendendo. Márcio pensou em ignorá-lo, pois tinha certeza de que a bola havia tocado um dos pés do goleiro improvisado, mas resolveu chamar Pedro para um canto para conversar separadamente com ele.

Pedro
Em fim de carreira depois de muito tempo como auxiliar de arbitragem, Pedro pensava no quanto seria ruim viver longe da proximidade com as partidas de futebol. Mas naqueles momentos ele pensava na 'mala' que poderia receber em sua casa conforme lhe fora prometido pessoalmente por um 'enviado de um dirigente'. Não pudera fazer nada que não pudesse despertar suspeitas durante todo o jogo e mesmo na hora do 'primeiro' pênalti não pudera intervir. E a chance última talvez, tinha sido a sequência do 'segundo' pênalti. Além do mais seu time do coração estava jogando em outra partida disputando a mesma vaga na final. Viu o juiz se dirigir para o meio-campo mas ficou ali, impassível, sabendo que a confusão tenderia a aumentar, "mas e daí" pensou, Armando havia recebido 'o dele' e a esse tempo devia estar nos infernos. Viu o policiamento afastar os jogadores de si e Márcio chamá-lo de lado. Reiterou sua posição de que a bola não havia tocado no goleiro ao mesmo tempo que Márcio elevava a voz dizendo que iria confirmar o gol. Ficou calado e voltou lentamente para o meio de campo.

Marcão
Como um veterano no futebol, primeiro volante na carreira toda, Marcão era 'capitão' do time. Isso era orgulho de sua mãe pois todos os seus irmãos estavam ou na cadeia ou foragidos. Naquela situação, 'macaco velho', Marcão não reclamou além da conta em todos os momentos. Porém achou que a tal de 'invasão da área' tinha sido uma sacagem do falecido juiz. Pegou a bola do fundo do seu gol e com ela debaixo do braço, quando o 'bandeirinha vacilão' voltou para o meio de campo, chegou bem pertinho de Márcio e quase tocando sua face na do árbitro disse bem claro: "Se você não der acréscimo de um cinco minutos e não der um pênalti pra nós eu vou mandar meus irmãos e os amigos dele dar um jeito em você e na sua família, falou?". O árbitro deu um passo para trás e em seguida sinalizou com uma das mãos abertas o acréscimo que o voltante intimidara-o a dar. Marcão levou a bola até o centro do 'caroço de abacate' e disse para o seu centroavante e o meia que estavam ao lado: "um cruza e o outro cai que o homem aí tremeu". E assim foi feito.
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daisy aguinaga

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MensagemAssunto: CIRANDELA   Sex 03 Dez 2010, 16:42


Na varanda

Arara: - Dominique deja vu palematan
Babá Ciça: - Calada Arara. Silêncio!
Dominique, menina de quatro anos: - Ciça, por que o papai morreu?
- Porque o avião caiu. Ele foi pro Céu.
- Mas se o avião caiu no chão, como ele foi pro céu?
Ciça coça a cabeça pensando como responder, porém a menina interrompe.
- E a mamãe foi embora?
A arara começa a gritar.
- Dominique deja vu palematan. Lematan. Lematan.
Ciça cobre a gaiola com uma toalha e despeja um suco de frutas no copo.
- Responde Ciça. A mamãe foi embora? Dominique pergunta
- Sua mamãe foi buscar seu papai.
- Ciça você está mentindo. Se meu pai caiu do avião não foi pro Céu ou se foi pro Céu a mamãe vai buscar ele lá no Céu?
- Beba o suco pra a gente ir logo pro parquinho, depois eu explico.
- Eu não quero ir pro parquinho, quero ver o papai e a mamãe.
A menina recusa o copo de suco e sai correndo para dentro da casa, a babá vai atrás e tenta convencê-la a brincar no parquinho.

A arara recomeça a gritar.
- Dominique deja vu palematan. Lematan. Lematan. Dominique deja vu palematan

Na sala

A babá está sentada no sofá com a menina no colo.
- Ciça, por que a arara grita? O que ela está falando?
- Eu não conheço a língua das araras.
Entra Tianita na sala com o bebê. Fala com a babá Ciça.
- Vou deixar o bebê com você para eu cuidar de Dominique. Será muito difícil para ela entender o que está se passando. Arrume suas coisas e vá para minha casa. Vou pedir para o motorista levar vocês.
Ciça se levanta e Tianita senta-se ao lado de Dominique. O bebê se joga nos braços da menina que agora sorri.

No quarto

A avó está deitada e o avô recostado numa poltrona ao lado da cama. A enfermeira, de braços cruzados está de pé olhando pela janela. Lá fora estão algumas pessoas no jardim e crianças correm pela grama. São dez horas da manhã, está nublado e um pouco frio. Choveu à noite.

No jardim

As pessoas conversam em voz baixa. Outras pessoas se aproximam do grupo. Abraçam-se. Uma mulher está chorando. Alguém reúne as crianças e as leva para dentro da casa.


Um taxi para no portão. O passageiro desembarca carregando uma pequena mala. Entra e vai ao encontro das pessoas no jardim.
Elas se surpreendem com a chegada do homem.
- Nicolas!
Nicolas: - O que houve? Por que estão reunidos aqui e com caras fúnebres?
Parente 1: - O acidente aéreo, Nicolas! Você consta da lista dos mortos!
Parente 2: - Lilian embarcou ontem para a França para reconhecer o corpo.
Nicolas: - Eu não embarquei, perdi o voo. Não consegui contato com vocês. Pernoitei no hotel de trânsito, estava exausto e adormeci.
Parente 2: - Precisamos avisar Lilian.
Nicolas: - Não soube do acidente. Voltei ao escritório pela manhã e decidi cancelar a viagem. Farei a reunião por vídeo conferência.
Parente 1: - Vamos ao quarto ver mamãe. Ela está medicada. Foi um choque para todos.
Nicolas: - E papai? E Dominique?
Parente 1: - Papai está tranquilo. A enfermeira está com eles. Dominique está com Tianita e os primos.
Entram todos.

No quarto

Nicolas abraça o pai, senta-se na beirada da cama. A mãe está adormecida. A enfermeira se retira. Lucas (Parente 1), irmão de Nicolas, permanece de pé próximo a janela e observa as crianças no jardim. Dominique entra correndo no quarto e pula no colo do pai.

Na sala

Parentes e amigos da família estão reunidos. João Pedro (Parente 2) está ao telefone. Sua mulher Carmen, irmã de Lilian está ao lado.
Surgem as crianças e Tianita procurando por Dominique. Ciça, com o bebê ao colo vem atrás delas. Carmen barra a passagem das crianças para o quarto e pede que elas voltem e esperem na varanda com a babá. Relutantes, elas chamam por Dominique que aparece de mãos dadas com Nicolas. Tianita e Ciça saem com as crianças.
João Pedro desliga o telefone e informa aos demais que não consegue contato com Lilian. A companhia aérea informou que os parentes das vítimas do acidente estão reunidos no hotel e alguns serão levados para o reconhecimento dos corpos resgatados.

Na varanda

São onze e meia, volta a chover. As crianças estão reunidas em torno de uma mesa. Tianita ajudada pela babá Teresa serve o almoço. Ciça dá a sopinha ao bebê.
Nicolas vem à varanda e a arara começa a gritar:
- Dominique deja vu palematan. Lematan. Lematan.
Tianita: - O que deu nesse bicho agora?
Ciça: - Desde ontem ela não para de gritar isso.
Nicolas se aproxima da gaiola e a arara continua gritando.
- Deja vu palematan. Lematan. Lematan.
As crianças imitam a ave:
- Lematan lematan lematan
Tianita cobre a gaiola. Oferece uma bebida a Nicolas. Ele agradece e volta à sala. Carmen o acompanha.
Ouve-se o grito abafado da arara:
- Lematan lematan lematan
Nicolas olha para trás e balança a cabeça. Dominique deixa a mesa e segue atrás do pai.

Na sala

Nicolas senta-se ao lado do cunhado João Pedro. Dominique agarra-se ao colo do pai. A enfermeira vem avisar que a mãe está acordada e quer vê-lo. O pai, apoiado na bengala, vem buscá-lo. Dominique começa a chorar.
- Quero a mamãe. Quero a mamãe.
Tianita aparece e pega a menina no colo e a leva para fora da sala.
O telefone toca e Carmen atende. Avisa que a ligação tem ruídos e passa o aparelho para o marido. Os demais muito aflitos o rodeiam.
João Pedro avisa que a ligação foi interrompida.

No quarto

Lucas está sentado na poltrona. Ele evita sair do quarto para ficar atento à mãe. A enfermeira a recosta nos travesseiros enquanto o pai senta-se ao seu lado e aponta para Nicolas e diz suavemente:
- Nosso filho está de volta. Veja!
Mãe: - esse não é nosso filho! E desmaia.

No jardim

As crianças, o bebê e as babás entram num carro com Tianita. Vão todos para a sua casa. Foi uma decisão combinada com Carmen. Dominique ainda chorosa olha para o alto, para a janela do quarto da avó e avista o rosto de Nicolas próximo à vidraça. Acena para ele que apenas sorri.

Na varanda

A arara está aos gritos.
- Dominique deja vu palematan
Carmen e João Pedro entram. Carmen fala com a arara:
- O que há contigo, querida? Nunca te ouvi gritar ou falar qualquer coisa!
Chega Nicolas e a arara se põe a berrar.
- Parece estranhar Nicolas! Diz João Pedro.
Nicolas se dirige à arara.
- Que foi menina? Esqueceu que te salvei?
Carmen: - Parece milagre este pobre passarinho estar vivo!
João Pedro: - ela não sobreviveria sem uma das asas!
Nicolas: - É perfeita esta prótese, só não permite que ela voe.
A arara recomeça a gritar.
- Dominique deja vu palematan
Carmen: - Eu gostaria de entender o que ela está falando. Parece que chama por Dominique!
João Pedro: - Mas o que significa esse “deja vu palematan”
Carmen: - Sei lá, parece Francês.
Nicolas: - Que mistério!
A enfermeira vem buscá-los. A mãe não está bem, é preciso chamar o médico.

Na sala

João Pedro espera a chegada do médico da família. Carmen decide ficar de plantão ao lado do telefone aguardando comunicação de Lilian.
Nicolas joga-se no sofá e adormece.

No quarto

O médico ordena a remoção da mãe para o hospital e sugere que o pai vá também para que ambos sejam assistidos. Lucas os acompanhará. A enfermeira terá uma folga.

No jardim

A ambulância espera pelo casal. Nicolas sai pelo portão sem atender ao chamado de João Pedro.

Na varanda

A arara aos gritos.
- Dominique deja vu palematan

Na sala

Carmen ao telefone comunica à Tianita os últimos acontecimentos.

Anoitece. A casa entra em silêncio.
João Pedro espera por Nicolas.

Lilian finalmente liga para a família e diz ter reconhecido o corpo do marido e está providenciando junto ao consulado o translado.

Três dias depois...

No jardim

Tianita chega com Dominique. A menina entra correndo e direto para a varanda onde está a gaiola.

Na varanda

Dominique abre a gaiola da arara que voa em direção ao jardim.

Na sala

Amigos e parentes estão reunidos aguardando a chegada de Lilian. João Pedro e Lucas estão transtornados. Carmen conversa com a enfermeira. No hospital, a mãe permanece em coma e o pai sedado.
Dominique entra na sala e diz que soltou a arara. Todos se aproximam da grande janela. A arara está pousada na grade do portão.
Tianita se pergunta:
- Como poderia voar tendo uma prótese como asa?

A arara desaparece no ar gritando:
- Nicolas, je vais par le matin. Nicolas, je vais par le matin.

Dominique abraça Tianita e chorando diz:
- Eu quero meu papai!


FIM
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RONALDO RHUSSO

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MensagemAssunto: Re: *********CONTOS   Sex 28 Ago 2015, 15:35

Mexendo Com Divórcio...
 
Mauro tinha uma vida muito interessante! Havia progredido na carreira e ainda estava em franca ascensão... Marisa, sua esposa e mãe dos dois filhos, havia estado ao lado dele nos momentos mais complicados e fizera todos os sacrifícios possíveis. Mas Mauro ficava olhando para as “esposas” dos outros empresários nas reuniões sociais e de negócios e passou a nutrir a vontade de desfilar com uma garota daquelas. Não faria mal algum uma garota dessas pelo menos quinze anos mais jovem que ele, pensava...
O problema era o preço. Sairia caro uma separação e, provavelmente mais caro ainda, bancar os caprichos de uma bela e jovem amante!
Porém um vencedor não vai se acovardar com um desafio tão excitante!
Já sabia o que fazer: daria atenção a uma daquelas meninas do escritório; de preferência àquela loirinha de seios fartos e olhar pidão. Experimentaria a sensação de um caso que não precisava ser amoroso e, se fosse tão bom quanto afirmavam,  pagaria o preço do divórcio. A Marisa iria entender! Ficaria magoada por um tempo, mas depois perdoaria... Por outro lado dividir o patrimônio com quem o ajudou a ganhar não seria problema, pois havia os filhos que no final herdariam tudo mesmo...
Entra em cena a Maria Eduarda! Vinte e três anos de idade, escolaridade baixa, mas uma recepcionista que era tão solícita que quem buscava informação com ela até esquecia o que tinha ido fazer ali na M&M Empreendimentos!
Mauro escolheu bem!
Em uma semana de relacionamento pediu o divórcio!
Marisa quase teve um troço! Implorava que o marido dissesse o que ela estava fazendo de errado, no que ele queria que ela mudasse... Era uma sensação de derrota, de culpa, de arrependimento... Veio o momento do ódio, da vontade de matar! Com certeza havia uma vagabunda por trás de uma tragédia dessas! Estava decidido, mataria a vagabunda!
O advogado, amigo da família de Marisa havia arrancado mais da metade do que ambos tinham juntos e Mauro aceitou numa boa!
Mauro estava vivendo momentos radiantes!
Onde aquela doçura aprendera todas aquelas habilidades na cama?
E tinha um bom paladar para vinhos!
Não era das que ficam repetindo roupas como uma flagelada! Não. E conhecia a procedência do melhor de Nova York e de Milão!
O bom, pensava Mauro, é que ela já estava com muita coisa acumulada e precisavam terminar a obra do apartamento novo  a fim de poder organizar melhor todas aquelas coisas que compravam numa espécie de gozo para ela e de alegria para ele, já que cada ida às compras propiciava momentos tórridos de prazer e de uma loucura boa de sentir...
 
E, melhor, Maria Eduarda o impulsionava a impressionar! Marcava sessões de massagem, drenagem linfática, spa com direito a um bom trato nos cabelos já embranquecidos e cansados, manicure, podólogo... Exigia que Mauro usasse ternos e relógios caros! Aproveitava para comprar um colarzinho e alguma pulseira que combinassem com os bons e novos relógios de Mauro! Afinal os dois deveriam combinar em tudo!
Marisa estava se recuperando e já não tinha mais vontade de matar. Queria apenas ver Mauro mais ferrado do que era quando se casaram! De acordo com os filhos, pelo jeito que as coisas estavam fluindo, ela nem precisaria se esforçar muito! Contrariando o Contador e amigo, Mauro vinha vendendo parte do que lhe restara da empresa e Marisa comprava tudo.
Menos de 8 meses depois e Mauro passou da fase de felicidade extrema para a fase da preocupação! Quem ligava tanto para Maria Eduarda e por que ela insistia que eram assuntos de mulher e que não valia a pena enchê-lo de problemas tolos?
Mas isso era o de menor importância! Mauro se esforçava para cuidar da saúde, tomava uns comprimidinhos que lhe permitiam acompanhar um pouco do ímpeto sexual de Maria Eduarda, mas ultimamente ela não parecia satisfeita... Parecia ter perdido a criatividade. Já não fazia questão de acompanha-lo nas reuniões sociais e mostrava-se insatisfeita com o limite imposto em seu cartão de crédito pessoal. Mauro não queria incomoda-la com a notícia recente de que estava falido e era mero funcionário da empresa que construíra juntamente com Marisa!
Mas Mauro já tinha tudo sob controle! Percebera que Marisa, que agora fazia questão de participar das reuniões com os Diretores da empresa, olhava para Mauro com aquele brilho antigo e que lhe dava a certeza de que ela ainda o amava e não lhe negaria um socorro. E Mauro até estava disposto a dar uma boa compensação amorosa caso Marisa se mostrasse disposta...
 
No entanto não parecera tão difícil como o imaginado por Mauro. Marisa aceitara ir com ele ao hotel de Angra onde ambos haviam passado momentos maravilhosos! Naquela tarde Mauro ficou encantado com a ex esposa! Ela não exigia nada! Sabia onde tocar em Mauro e respeitava sorridente os seus limites!
Na viagem de volta para o Rio Mauro aproveitou a expressão de felicidade na face de Marisa e abriu o coração. Falou das dificuldades financeiras e da grande quantidade de dívidas; falou que estava se sentindo sozinho, sem alguém para conversar e que se envergonhava em fazê-lo, mas naquele momento precisava de uma grande ajuda financeira de Marisa!
Ela não demonstrou surpresa, não demonstrou qualquer mudança de humor e lhe perguntou quanto ele queria no novo apartamento.
Mauro não esperava por esse interesse de Marisa no único imóvel que lhe restava, mas concluiu que Marisa ainda o amava, iria lhe ajudar, mas, diferentemente de Maria Eduarda, não queria mexer com seus brios. Preferia que fosse uma ajuda mascarada pela compra de seu apartamento e permitiria que ele continuasse a viver lá, afinal Marisa parece ter dado mais sorte do que ele porque mais que triplicara os bens, enquanto ele se distraíra e perdera tudo.
Era uma boa saída! Vendeu o apartamento para Marisa que nem pechinchou e agora poderia usar sua experiência para um recomeço. Com todo o know how acumulado atingiria o sucesso muito mais rápido que antes!
Chegou em casa feliz e ao entrar no quarto viu sua jóia, a Maria Eduarda chorando e todas as gavetas espalhadas pelos cantos do quarto! Chegou a pensar que foram assaltados!
Ela com aquela voz maravilhosa repetia: “ – Não é você! Sou eu”!
“- Eu vou embora da sua vida porque você não é mais feliz e apenas tenta me agradar! Eu não mereço um homem tão bom quanto você! É uma questão de honra não mais fazê-lo infeliz! Vou embora! Já levei quase tudo para o antigo apartamento onde eu morava! Não precisa me dar mais nada”!
Mauro estava desesperado! Chorava feito uma criança surrada!
Implorou de todas as formas e não vendo outra saída propôs irem passar uns dias em Milão, a cidade dos sonhos de Maria Eduarda e, só depois, falariam em separação se ela ainda quisesse!
 
Maria Eduarda abraçou bruscamente o pescoço de Mauro e gritou: “- Jura, meu amor”?
 
No dia seguinte Mauro mandou buscar as coisas que ela já tinha levado e foram juntos pesquisar o melhor roteiro para essa viagem que incluiria Paris e Roma. Era uma pequena e justa exigência de Maria Eduarda!
 
Um mês de viagem  e o dinheiro da venda do apartamento escorreu pelo ralo da compulsão em comprar futilidades...
Maria Eduarda não tocara mais no assunto separação e Mauro apelaria novamente para a generosidade, fruto do grande amor de Marisa.
 
Ao chegar à empresa descobriu que seu cartão de acesso ao elevador privativo não estava funcionando e nem lembrava como acessar seu espaçoso escritório através dos elevadores comuns.
 
                O cartão também não dava acesso à sua sala particular e a nenhum dos ambientes que lhe eram exclusivos.
 
Foi avisado de que Marisa chegaria em algumas horas e queria falar com ele.
Horas de espera observando o ritmo de trabalho no andar em que ele comandou por tantos anos, estava impressionado por não lembrar ter visto um movimento frenético assim antes...
Mais tarde frente a frente com Marisa, Mauro a examinava e ela parecia ter rejuvenescido! Não tinha mais aquelas marcas de falta de sono. Parecia ser uma mulher madura sem marca alguma de agrura!
Marisa foi direta:
“ – O que mais me impressionou em você foi a coragem de se aventurar dessa forma, como se fosse um menino inexperiente! Tenho certeza de que valeu a pena, Mauro! Eu mesma tenho recebido os afetos do meu “personal trainner”! Não preciso pagar mais que o bom salário dele! Tenho mesmo que lhe agradecer por ter me dado esse presente! Já redigi, de próprio punho uma Carta de Recomendação para que você a apresente em alguma empresa que possa reconhecer o seu talento! Eu já vi do que você é capaz e não vou arriscar meu patrimônio. Para mim as outras empresas são concorrentes, de maneira que vai ser ótimo tê-lo em uma delas”.
“ – Mas você não pode estar falando sério! E todo o suor que derramei para criar essa empresa”?
 
“ – Espero que tenha secado no frio da Europa nesse seu longo passeio! Os dois helicópteros da empresa já são meus e se você quiser vender seu carro eu pago bem. Estou pensando em dar de presente... Agora preciso ir, pois tenho horário com meu “personal”. Você tem um mês para desocupar o apartamento e não se preocupe com sua “joia preciosa” porque, de acordo com informações fidedignas, ela já tem outro trouxa para arrancar o couro. Mais uma vez lhe agradeço por me ensinar a ser feliz depois de tanto tempo”!
 
Tem que amar a estupidez
pra deixar sua metade
e gozar de uma beldade
que lhe arrancará a tez
e a saúde de uma vez!
Capim novo custa caro
e para manter, não raro,
é preciso ter um sócio
que aquecerá o negócio
e será um bom “amparo”
quando precisar do ócio
na alcova, pois divórcio
não passa de um anteparo
quando o cabra é velho e avaro
e se engraça com uma rês
que lhe abestalha de vez
e lhe tira a sanidade.
Digo sem temer verdade:
Tem que amar a estupidez!
 

Ronaldo Rhusso
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