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 RETRANCA E SEU CRIADOR

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Joseph Shafan

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MensagemAssunto: RETRANCA E SEU CRIADOR   Ter 07 Dez 2010, 14:23

O octossílabo de Alberto da Cunha Melo é um verso não ortodoxo, com cesura marcadamente apenas na 8ª sílaba. Com ele o poeta privilegia a melodia, o andamento, a dança do verso, sem amarras. Desde seus primeiros livros Círculo Cósmico (1966) e Oração Pelo Poema (1969), o Alquimista de Olinda utilizou tal formato.
Temos a impressão que o poeta pernambucano é o brasileiro que mais utilizou o octossílabo em sua lírica, chegando mesmo a criar a Retranca, uma forma poética que se caracteriza por um esquema em quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.
Na Bahia, além deste poeta, diversos outros estão a fazer suas Retrancas atualmente. Um deles é o poeta Silvério Duque, de Feira de Santana. Acompanhemos o poema “Para um pôr-do-sol no Recife”:

– Não penso, Poeta, em tua vida...
mas neste ofício que consome
nossas melhores esperanças,
nutrindo, do Amor, toda a fome,

neste manejo de palavras
a destruir sua própria lavra

e que é tão nosso quanto o tempo
ou o acumular de nossas noites
( forçosa negação da morte )

porque o temor da Eternidade
nos consola ante a Realidade.

Outro cultivador de Retrancas no seu jardim da poesia é o soteropolitano Bernardo Linhares. Abaixo, o poema “Madrepérola”:

No seio cálido da aurora
o céu também é madrepérola;
as minhas mãos são duas conchas,
onde deslizam tuas pérolas;

são duas pérolas douradas,
brilhando assim, tranqüilas, claras;

em meio às luzes desse bálsamo
e o céu da boca à flor da pele,
levo nas mãos teu coração;

ao florir das primeiras horas,
teu seio é cálido na aurora.

Já este poeta possui hoje, no prelo, um livro em sua maioria composto por Retrancas, como esta que segue, o primeiro fragmento de uma composição de médio fôlego, intitulada “Procura”, formada por dez Retrancas, 110 versos octossílabos.

Procuro um verso imaculado
feito água pura de cacimba,
um verso que devore a noite
feito a esgrima de uma rima;

um verso que abra a porta e siga
a sina viva da cantiga;

que lance luz sobre a cegueira
nossa de todo amanhecer
e que descubra as cordilheiras,

a manhã distinta e seus tons,
afável senhora dos sons.

Sabemos de pelo menos outros dois poetas baianos que estão cultivando Retrancas, mas, infelizmente, não dispomos dos versos destes. Outrossim, gostaríamos de saber se em Pernambuco, terra de Alberto da Cunha Melo, a forma por ele cunhada vem sendo desenvolvida por seus vates.

http://www.cronopios.com.br/site/critica.asp?id=3541

Alberto da Cunha Melo, cujo nome completo era José Alberto Tavares da Cunha Melo (Jaboatão dos Guararapes, 1942 — Recife, 13 de outubro de 2007) foi um escritor, jornalista e sociólogo brasileiro.
Biografia
Neto e filho de poetas, estreou em livro em 1966, ano em que o historiador Tadeu Rocha batizou de Geração 65 o grupo de poetas surgidos nas páginas do Diário de Pernambuco naquela época[1]
Como sociólogo, trabalhou por onze anos na Fundação Joaquim Nabuco. Em sua atuação como jornalista, foi editor do Commercio Cultural, do Jornal do Commercio (Recife) de Pernambuco, e da Revista Pasárgada, além de colaborador da coluna Arte pela Arte, do Jornal da Tarde de São Paulo, e da coluna Marco Zero, da Revista Continente Multicultural.
Foi o maior incentivador do Movimento de Escritores Independentes de Pernambuco nos anos 1980 [2]
Foi, também, Vice-Presidente da União Brasileira de Escritores – Secção Pernambuco – UBE-PE, entre 1983-1984, primeira gestão da entidade após a sua reorganização, com o início da abertura política no Brasil, e, por duas vezes, Diretor de Assuntos Culturais da Fundação do Patrimônio e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE.
Além das obras individuais, publicou poemas em antologias nacionais e estrangeiras. Em 2001, foi incluído na coletânea Os cem melhores poetas brasileiros do século XX, organizada por José Nêumanne Pinto (São Paulo: Geração Editorial). [3]
Ocupou a cadeira 60 da Academia de Letras e Artes do Nordeste.


Canto dos Emigrantes - Alberto da Cunha Melo
Alberto da Cunha Melo, como todo grande poeta, possuía um espelho interior que lhe servia de parâmetro. Escrever para enxergar melhor o mundo e por necessidade da alma, não por fetiche. Prova desta nossa afirmação é "Canto dos Emigrantes", poema que aos poucos vai se configurando em um clássico da poesia brasileira. "Canto dos Emigrantes", segundo Cláudi Cordeiro, esposa e musa do poeta, possui duas versões musicais e a performance de Lirinha (Cordel do Fogo Encantado) que leva multidões ao delírio. Foi escolhido para duas antologias importantes e pertence ao livro "Noticiário", um marco na poesia brasileira.

Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.
De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.

---
De que vale fazer poesia no Brasil?

Não vale para ganhar dinheiro, nem celebridade, vale por si mesma, autotelicamente. É uma instituição social multissecular que vem dos grafismos parietais dos fundos das cavernas. É uma arte do tempo e não do espaço, como querem algumas correntes poéticas do Brasil.
Diário de Pernambuco, domingo, 07.05.2006 - Ivana Moura entrevista Alberto da Cunha Melo

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JUDAHBEN-HUR

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MensagemAssunto: Re: RETRANCA E SEU CRIADOR   Ter 07 Dez 2010, 20:58

Eu não entendi esse tópico aqui, mas vou ser justo.

Quando decidi escrever um livro com a Nilza Azzi combinamos que eu escreveria sobre cada modalidade e ela faria uma pesquisa mais apurada a fim de que informássemos ao leitor algumas origens e, especialmente o que fosse vanguarda e valesse a pena estudar.

No falecido Forum a Nilza divulgou a "Retranca" e até praticamos algumas por lá.

No início da criação do Descanso das Letras eu havia decidido honra-la deixando a modalidade em branco a fim de que ela iniciasse novamente, pois a Retranca, conforme o seu, por assim dizer, criador, é um estilo, em minha opinião, sem sal, e, octossílabo sem tônica na quarta soa tão falso como nota de três reais.

Mas...

Respeitando os admiradores do poeta deixo aqui uma carta da Nilza para a Cláudia Cordeiro que mantém um Blog que é um tributo ao poeta ALBERTO DA CUNHA MELO:

Ter 7 Dez 2010
A “RETRANCA” para criança.
Publicado por Cláudia Cordeiro sob Notícias , Poetas cultores da "RETRANCA"
Sem Comentários

Um emoção saber da RETRANCA se estendendo pelos caminhos também da poesia dirigida ao público infantil.
Transcrevo o e-mail da escritora Nilza Azzi recebido hoje, dia 7 de dezembro de 2010.

Prezada Cláudia Cordeiro

Tendo tomado contato com a criação de Alberto da Cunha Melo, através dos boletins que recebo, encantei-me tanto com a Retranca, como com o Renka de oito sílabas. Não faço parte oficialmente da Associação dos Cultores da Retranca, mas extra-oficialmente estou entre eles. Comecei a divulgar essa forma e a praticá-la. Recentemente dei-me conta de que a Retranca é uma excelente forma de contar pequenas histórias. Estudei, fiz alguns testes e acabei por reunir algumas retrancas num livro infantil que publiquei. O nome do livro é “Gato Pipoca”. Editado pela Edicon, foi lançado na 21ª Bienal do livro de SP. Não é um trabalho sofisticado. Não sei se há outros escritores de literatura infanto-juvenil utilizando essa forma. Fiz algumas oficinas de poesia com crianças na Bienal, na Livraria da Vila, em SP, e na Livraria Cultura, em Campinas, onde moro. É muito interessante, a reação das crianças, quando explico que o poema é baseado num esquema tático do futebol. Elas ficam muito interessadas, demonstram entender a estrutura, ficam motivadas e compõem seus poemas com interesse e entusiasmo.

O intuito de escrever-lhe é que gostaria de oferecer-lhe um exemplar do meu livro. Muito me honraria se indicasse um endereço comercial para onde possa enviá-lo.

Saudações literárias,

Nilza Azzi


Abaixo o link do Blog para quem quiser conferir mais detalhes desse tributo que dizem ser justo:

http://blog.trilhasliterarias.com/
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Moira Ochs

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MensagemAssunto: Re: RETRANCA E SEU CRIADOR   Qua 15 Dez 2010, 21:16

Joseph Shafan escreveu:

Temos a impressão que o poeta pernambucano é o brasileiro que mais utilizou o octossílabo em sua lírica, chegando mesmo a criar a Retranca, uma forma poética que se caracteriza por um esquema em quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.


Uma curiosidade: O que é assonância aparelhada?
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